"A família de Berta Quintana era uma das mais antigas de Navidad, onde viviam há mais de dez gerações. Os seus antepassados desde sempre se tinham dedicado à agricultura, e teriam continuado se não tivesse acontecido o acidente do bisavô de Berta, um homem com muita coragem que sempre que se zangava dava pontapés na porta do quarto com tanta raiva que muitas vezes partia-a e a casa tremia toda. Foi precisamente isto o que aconteceu no ano em que o bisavô perdeu toda a sua colheita por causa duma praga de insectos, justamente no dia antes da colheita, com tão pouca sorte que, ao partir-se a porta, uma lasca foi espetar-se-lhe no pé, e o pé infectou, e para lhe salvarem o pé foi preciso cortar-lhe a perna, que gangrenou tão depressa que a bisavó nem tempo teve para rezar um terço.
E a perna, ou melhor dizendo, a falta da perna do bisavô mudou o destino da família Quintana. Mas como, apesar de ter perdido a perna, não tinha perdido a responsabilidade de alimentar toda a família - três filhos e outro a caminho -, teve a ideia de abrir uma taberna por tanto gostar de beber: lembrava-se sempre da taberna O Quixote, na capital, e sempre que ia vender a sua colheita, visitava-a depois. Se a venda tivesse sido muito boa, bebia três bagaços, coisa que só aconteceu uma vez, pois as colheitas quase nunca eram de grande qualidade, pelo que decidiu que beberia também três bagaços quando a venda fosse muito má, tristezas não pagam dívidas.
Por isso o bisavô Quintana, depois do seu infeliz acidente, investiu o pouco dinheiro que tinha na compra duma perna de pau e construção da primeira taberna de Navidad, e no andar de cima instalou a habitação familiar, pois para poder abrir a taberna e comprar a perna de pau teve de vender os seus dois hectares de terra e a quinta. E a partir de então deixou de dar pontapés quando se zangava, não fosse ficar sem a outra perna, e para acalmar bebia um bagaço e procurava outra vez uma desculpa para beber mais de um: se a zanga fosse muito grande bebia três bagaços, e se não, também, pois para alguma coisa haveria de servir ser o dono da taberna.
A taberna chamou-se O Pirata, nome que disse o bisavô quando se viu com a sua perna de pau, pois apesar de perder a perna nunca perdeu o bom humor, e pediu à mulher, a bisavó de Berta, que quando morresse não o enterrassem com a perna de pau, pusessem-na na taberna como reclamo ao pé da porta, onde havia um pequeno letreiro com o nome do sítio. E assim foi, quando o bisavô esticou a única perna que lhe restava, quando o seu coração, um bom dia, decidiu parar de palpitar. A notícia da sua morte produziu uma grande surpresa, pois ninguém conseguia acreditar que um homem com uma vida tão atarefada fosse morrer de uma forma tão agradável. E quem nesse dia bebeu três bagaços foi a bisavó Quintana, e a seguir rezou o terço pela alma do marido. Coitada, ficava viúva sendo ainda tão nova, e pôde voltar a casar, pois além disso era muito bonita, mas a ver a perna do bisavô a toda a hora, quem é que seria capaz de pensar noutro homem?"
[Navidad foi baseada muito certamente nalguma terrinha de uma península acima de Barcelona, onde existe muito vento; de acordo com o Joan - vocês não conhecem o meu Joan - as pessoas daquele sítio não regulam muito bem da pinha porque apanham com muito vento, vento mediterrânico, portanto; de resto, o meu Joan acha que tudo o que não é de Barcelona é mau]