O maestro sacode a batuta,
E lânguida e triste a música rompe...
Lembra-me a minha infância, aquele dia
Em que eu brincava ao pé de um muro de quintal
Atirando-lhe com uma bola que tinha dum lado
O deslizar dum cão verde, e do outro lado
Um cavalo azul a correr com um jockey amarelo...
Prossegue a música, e eis na minha infância
De repente entre mim e o maestro, muro branco,
Vai e vem a bola, ora um cão verde,
Ora um cavalo azul com um jockey amarelo...
Todo o teatro é o meu quintal, a minha infância
Está em todos os lugares, e a bola vem a tocar música,
Uma música triste e vaga que passeia no meu quintal
Vestida de cão tornando-se jockey amarelo...
(Tão rápida gira a bola entre mim e os músicos...)
Atiro-a de encontro à minha infância e ela
Atravessa o teatro todo que está aos meus pés
A brincar com um jockey amarelo e um cão verde
E um cavalo azul que aparece por cima do muro
Do meu quintal... E a música atira com bolas
À minha infância... E o muro do quintal é feito de gestos
De batuta e rotações confusas de cães verdes
E cavalos azuis e jockeys amarelos...
Todo o teatro é um muro branco de música
Por onde um cão verde corre atrás de minha saudade
Da minha infância, cavalo azul com um jockey amarelo...
E dum lado para o outro, da direita para a esquerda,
Donde há arvores e entre os ramos ao pé da copa
Com orquestras a tocar música,
Para onde há filas de bolas na loja onde comprei
E o homem da loja sorri entre as memórias da minha infância...
E a música cessa como um muro que desaba,
A bola rola pelo despenhadeiro dos meus sonhos interrompidos,
E do alto dum cavalo azul, o maestro, jockey amarelo tornando-se preto,
Agradece, pousando a batuta em cima da fuga dum muro,
E curva-se, sorrindo, com uma bola branca em cima da cabeça,
Bola branca que lhe desaparece pelas costas abaixo...
Mas não gosto disto:

Deveria gostar. Se gosto da maluquice do 1.º, deveria gostar da maluquice do 2.º.
Eu quero crer (adoro a intolerância encapotada desta expressão) que ainda não gosto de Dalí porque ainda não mo explicaram e eu ainda não procurei compreendê-lo. No dia em que me esmiuçarem este quadro, pondo a nu todos os truques da/na sua feitura, apaixono-me, quase de certeza, por Dalí.
Este parlapié todo para dizer que, ao contrário do que é senso comum, a arte é muito mais cérebro do que coração.
A arte é a cabeça a emocionar o coração.
(pá, eu às vezes nem sei como)
10 comentários:
o surrealismo não é tão imediato. mas o dalí é bom!
Gosto imenso de Dali. A interpretação dos desenhos é especulativa mas a originalidade, a cor e os pormenores são arrebatadores. Talvez não como os 300g de cada vez (por falar nisso não me posso esquecer de comprar fiambre no Pingo Doce), mas sempre têm algum impacto.
Pedro,
Estás a chamar-me básica. lol.
Pulha,
Não adianta. Preciso que me falem dele (um quadro qualquer de Dalí)para lhe dar o devido valor (a Dalí). Já me conheço. Foi assim com a Ronda da Noite de Rembrandt; foi assim com o fresco da Última Ceia de Leonardo da Vinci; foi assim com A pequena bailarina de Degas ...
Compra o de frango fumado (tem é um cheiro esquisito aquilo, mas é bom ... eu gosto e não, ainda não me explicaram como é a feitura :)
Bom, bom, seria juntar o exercício dos 300 g e a visão de um quadro Dalí, queres tu dizer? Epá, não sei ... Gosto mais das flores que lá tenho na parede ... (e não, não são os girassóis de Van Gogh).
não
E, porque tens de gostar do Dali? Eu até aprecio o Salvador, apesar do nome de forcado, mas não sou grande fã da obra do Buñuel, isto dentro de uma esfera surrealista.
Nem discuto se tem ou não qualidade. Trata-se de gosto.
E eu não gosto de cozido também...
Mak,
Sim, pode dizer-se que é isso. De qualquer forma, o gosto educa-se. E é aqui que falha a minha relação com Dalí ... Quando fôr educada, continuará a não haver empatia, mas apreciá-lo-ei. Neste momento, desprezo-o. E acho que ele não merece.
De qualquer forma, o problema não é ele, sou eu (epá isto faz-me lembrar coisas ...).
Gosto do que você gosta e do que você não gosta também. Dali é maravilhoso.
Terráqueo,
Coincidências ...
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